quinta-feira, 24 de abril de 2014

A textura azul





Os caminhos que me levaram ao Kind Of Blue de Miles Davis, envolvem um dia frio, chuvoso e a morte de mau pai.  Como uma espécie de cena "chavão"em um filme bucólico, aquelas semanas entre abril e maio de 2009 foram duras.

Modelo de conduta, amigo e protetor, meu pai partia, deixando um buraco enorme na minha vida. Ali, no quarto escuro, imóvel, eu juntava mentalmente os pedaços que a dura experiência com a morte havia deixado. Sentia a necessidade da música invadir o ambiente; mas não encontrava um som que me confortasse, me sacudisse daquela inércia mórbida.

 O meu primeiro encontro com o Jazz foi com Kind Of Blue; com a suavidade dos seus temas a beleza na sua execução, a calma com que ele invadia o quarto e iluminava os cantos escuros, as dúvidas, os medos. Foi a primeira vez que percebi que a música tinha textura, cor, brilho.

 Kind of Blue me fez entender uma verdade que até aquele momento me havia escapado; espaço e tempo são criações humanas, categorias que nos limitam.

Em pouco mais de 50 minutos, Miles, Coltrane, Adderley, Cobb, Evans, Chambers e Kelly, constroem um caminho até então inexplorado, unindo sofisticação, simplicidade e improviso.

Perplexo então, percebi a transitoriedade das coisas e a importância de criarmos o "nosso tempo", imprimirmos o nosso ritmo, executar as nossa vidas como as belas melodias do álbum.

Os temas deslizavam um a um, sem pressa, sem vaidade, contrariando o mundo externo, que insistia em aniquilar o presente, transformando-o em passado e me projetando para o futuro.

KInd of Blue chegou ao fim, a música cessou, mas a sua beleza continuava a preencher o quarto. Nesse exato momento percebi que assim como a música, uma parte de meu pai havia cessado, mas a sua beleza também continua a preencher o espaço na minha memória em em minha vida. Saudades, vou ouvir Kind Of Blue!!!!!






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